O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) apresenta pela primeira vez no País uma retrospectiva da obra de John Akomfrah. Figura paradigmática da arte britânica, Akomfrah é um dos mais renomados artistas a explorar os deslocamentos da diáspora africana a partir da imagem. Sua obra é reconhecida por compor uma vertiginosa rede de conexões, percurso que cobre desde as raízes do colonialismo, em trabalhos como Tropykos (2015), a filmes de ficção científica de inspiração afrofuturista, como O último anjo da história (1995). A mostra reúne 16 obras do artista, a maioria jamais exibida no Brasil, entre filmes de ficção, documentários e videoinstalações. Todos serão exibidos em DCP.

Nascido em Gana em 1957, Akomfrah emigraria para a Inglaterra ainda na infância. Na década de 1980, fundaria o seminal coletivo de artistas Black Audio Film Collective. Composto por imigrantes e filhos de imigrantes, o coletivo redefiniria a relação entre estética e política na paisagem cultural britânica a partir de uma perspectiva negra. Para Akomfrah, fazê-lo era uma tarefa premente. Em um Reino Unido fortemente marcado pelo racismo, onde a presença negra era frequentemente silenciada nos espaços artísticos e teimava em ser capturada pela mídia hegemônica sob o signo da criminalidade, urgia, nas palavras do realizador, fundar um “novo acordo entre a imagem e a história”.

A obra de Akomfrah atravessou múltiplos deslocamentos desde o período do Black Audio, contemplando contribuições na forma de escritos teóricos e uma incursão cada vez mais frequente nos espaços da arte contemporânea. O traço definidor nesses trabalhos é uma investigação obstinada das imagens de arquivo. É este o norte e a obsessão da arte de Akomfah, caminho pelo qual se empenha em trazer à superfície as rasuras, os silenciamentos, as omissões da história. No entanto, se volta às imagens do passado não é para satisfazer-se em recontar aquilo que foi, senão para incidir sobre o agora. Segundo o realizador, os materiais de arquivo continuam a gerar problemas no presente. Para ele, mais que mero documento, “toda imagem é uma súplica por um futuro”.

O ímpeto em apropriar-se de imagens alheias se estende também à literatura e à teoria. Akomfrah se notabilizou por canibalizar textos de Homero, Shakespeare, Derek Walcott, James Joyce, James Baldwin, Samuel Beckett e Virginia Woolf, e por estabelecer uma relação fecunda com a obra de filósofos como Jacques Derrida. A questão da diáspora africana ganha ressonância ainda nos diálogos imaginários mobilizados por ele com figuras seminais da cultura negra. O artista dedicou filmes a personagens históricos na luta política antirracista, como Malcolm X, Martin Luther King e Stuart Hall – todos eles incluídos na mostra.

Além das obras de Akomfrah, serão exibidos dois filmes de Reece Auguiste, um dos mais proeminentes artistas do Black Audio Film Collective. A retrospectiva inclui também uma sessão especial do longa-metragem Borderline (1930), de Kenneth Macpherson. Clássico do cinema silencioso de vanguarda do Reino Unido, o filme foi pioneiro na abordagem das relações inter-raciais e é uma referência seminal para Akomfrah. A mostra inclui uma aula magna com o historiador da arte Kobena Mercer (Universidade de Yale, EUA), além de debates com críticos e pesquisadores .